Publicado segunda, 18 de setembro de 2023

Era uma vez, no ano de 1963, três amigos, Jorge, Toninho e Evaristo, que decidiram abrir uma loja de presentes e joias em Guaxupé: a Galeria dos Presentes.
Jorge Benevides Macedo, o sócio mais velho, já era casado com Terezinha dos Reis Macedo, Dona Tereza, e era o patrão dos outros dois amigos quando iniciaram a sociedade.
Antonio Custódio Ferreira, o Toninho, e Evaristo Francisco Marques começaram a trabalhar em 1956 na Casa Jussara, a loja de óculos e joias de Jorge, quando tinham 16 e 14 anos. Os dois meni nos haviam se mudado juntos, um ano antes, de São Pedro da União para Guaxupé, para cursar o ensino ginasial na Academia de Comércio São José. Antes de trabalhar com o Jorge, eles fizeram pequenos trabalhos na cidade para poder se manter. Porém, a amizade dos dois começou muito antes, tendo estudado juntos desde crianças em sua cidade natal.
Em 1982, infelizmente, Jorge Macedo faleceu, ainda com 50 anos. Tereza continuou como sócia, mantendo a sociedade e a amizade do trio, além das esposas Maria Cecília Cruvinel Ferreira, do Toninho, e Ana Maria da Silva Marques, do Evaristo. Na época de Natal, por muitos anos, Tereza fazia questão de estar lá todos os dias, para atender os clientes e auxiliar os amigos no que precisassem.
Evaristo trabalhou diariamente na loja até durante a pandemia, em 2021. Cuidava com muito zelo de todas as compras da loja e do atendimento aos viajantes, além de diversas outras atividades.
Toninho continua firme em sua rotina de abrir e fechar a Galeria dos Presentes todos os dias, sempre atencioso com os funcionários e clientes. Muito ativo, cuida da administração financeira das lojas com riqueza de detalhes, sempre encontrando a solução para cada questão.
Jorge foi como um pai para Toninho e Evaristo, ensinando-os a trabalhar e a serem bons comerciantes: “Ele era como um pai pra gente. Só ensinou coisa boa”.
Toninho e Evaristo, desde meninos juntos, nunca discutiram: “Cada um respeita a opinião do outro e faz a sua parte”. Esse é o segredo do sucesso da Galeria: Trabalho, respeito e amizade.
Citando reportagem do Correio do Sudoeste, de 26 de setembro de 2009, sobre o aniversário de 46 anos da Galeria:
“A principal marca da Galeria é a amizade (...). A conclusão é que muito trabalho e amizades sinceras fizeram o sucesso de todas as Galerias. Amizade é um presente para sempre”.
O começo
Quando os meninos moravam na Pensão da Dona Vita, na Balaústra, Toninho soube que um colega na pensão, o Abel, de Bom Jesus da Penha, estava deixando a oficina do Jorge para ir trabalhar em uma recauchutagem de pneus com os irmãos Barulho. Na mesma hora, ele correu até a Casa Jussara, que ficava na Avenida Conde Ribeiro do Valle – local das Óticas Jussara até hoje – e se ofereceu para a vaga.
Jorge perguntou: - Qual é sua origem?
Ele respondeu: - Meus avós vieram da Itália.
- Ah, você pode começar a trabalhar amanhã. Disse ele.
Toninho começou então a trabalhar com o Jorge no dia 15 de agosto de 1956. A expectativa do jovem rapaz era trabalhar na ofi cina de joias, pois ouvia seu colega comentar sobre o trabalho que lá fazia. Parecia um sonho! Quando chegou, arrumou muitos armários e limpou muitas peças antes do dia em que foi finalmente convidado a entrar na oficina. Valeram a espera e a apreensão: foi um dos momentos mais alegres de sua vida! Conta ele. Muito habilidoso, apaixonou-se pela profissão de ourives.
Passados alguns dias, com a saída de um funcionário, Toninho perguntou ao Jorge se poderia convidar seu amigo Evaristo para trabalhar com eles. E assim aconteceu.
Os meninos eram muito dedicados e compromissados, razão pela qual obedeciam e aprendiam muito com o Jorge. Eram também bastante responsáveis, já fazendo um pé de meia com seu salário, além de pagar todas as suas despesas de moradia e estudos. Esse é um ponto importante: meninos que vieram da roça e tinham a educação financeira no seu cerne, sempre.
A abertura da loja
A confiança e a amizade entre os três era tão grande que, poucos anos depois, Jorge propôs abrirem uma loja em sociedade. Os jovens não titubearam. O ponto era que precisariam conseguir o capital para abrir a loja. Cada um entraria com cerca de 550 mil cruzeiros.
Toninho tinha conseguido guardar 250 mil. Pediu empréstimo a seu pai, Custódio Emídio Ferreira. O jovem era tão zeloso que, apesar de estar começando a vida, de iniciativa própria propôs pagar juros de 4,0% ao mês – maior do que os juros da poupança à época, que era 2,5% ao mês – tudo registrado em notas promissórias que iam sendo reformadas a cada pagamento semestral que ele fazia ao pai. Isso já indicava sua habilidade com as finanças, sua marca sua – atuou durante décadas como tesoureiro do Lar São Vicente e como conselheiro fiscal da cooperativa de crédito Agrocredi. Evaristo também utilizou estratégia similar para conseguir o capital.
Com o dinheiro em mãos, começaram a imaginar a loja. Alugaram um prédio do tio da Tereza, Nenzico Barulho, na Avenida Conde Ribeiro do Vale, então número 135, ao lado do Hotel Cobra – hoje Teatro Municipal, local nobre da cidade – para instalar a loja. Enquanto Jorge cuidava de sua outra loja, os meninos literalmente construíram a Galeria. Eles idealizavam as prateleiras, as vitrines e tudo o mais, e iam construindo, com a ajuda do marceneiro e amigo Telo Valente. Toninho conta que utilizou uma vitrola para construi um prato giratório para expor as joias, com cortinas de veludo, espelhos e outras modernidades para a época. Ficou uma maravilha!
Assim, passaram de janeiro a agosto de 1963 montando a loja. Em agosto, duas mulheres entraram na loja e perguntaram se havia um cortador de unhas, um “trim” – a primeira venda da loja! Essas primeiras freguesas eram as irmãs Buffoni, que compram até hoje na Galeria. Assim, a loja foi aberta, sem a preocupação de fazer uma inauguração. Mas, combinaram que a data de aniversário seria setembro, uma vez que agosto não é um mês em que costumavam acontecer festas ou casamentos, ou seja, não era bom mês para vendas.
A partir disso, iniciaram suas vendas de joias, relógios, cristais de Murano e louças Porto Ferreira. No início eles entregavam as mercadorias a pé, o que era bastante cansativo em sábados com muitos casamentos. Depois, compraram uma lambreta para facilitar as entregas.
Jorge já era profissional experiente; levou os meninos até São Paulo para conhecerem os locais de compra das mercadorias durante o período em que trabalharam na Casa Jussara. Rapidamente eles aprenderam e passaram a ir sozinhos. Assim, para abastecer a loja, os jovens viajavam quinzenalmente para São Paulo, inicialmente de trem e depois no Fusca branco da Galeria.
Os três idealizavam e fabricavam as joias, ficavam atentos para sempre ofertar as novidades de cada época, facilitavam os pagamentos das compras e tratavam todos com a mesma cordialidade, conquistando clientes de Guaxupé e Região. Assim, aos poucos, a loja foi atraindo e conquistando a clientela, principalmente pela honestidade e carisma dos sócios.
A Família Galeria
As primeiras vendedoras da loja foram a Toninha e a Olga, primas do Evaristo e do Toninho, respectivamente. A Galeria dos Presentes, inclusive, ficou conhecida como a Galeria dos Parentes. Toninho é carinhosamente chamado de Tio Toninho e, Evaristo, de Varistinho.
São muitos funcionários que trabalham e trabalharam por anos a fio na loja, alguns até depois de se aposentar. Hoje, são quase 30 funcionários nas três lojas – além do Emídio, filho do Toninho, que há 36 anos trabalha na Galeria.
Em todo Natal, as lojas ficam abertas até a noite no mês de dezembro. Até início dos anos 2000, na véspera do Natal, dia 24, a Galeria ficava aberta até o último freguês, que geralmente saía quase à meia-noite, comprando presentes de última hora. Os sócios, então, convidavam os funcionários e suas famílias a cear na Galeria – além de suas próprias famílias: Jorge e Tereza, com seus quatro filhos, Toninho e Cecília, com seus oito filhos, e Evaristo e Ana Maria, com seus três filhos.
Dona Tereza preparava as deliciosas comidas e todos se divertiam muito na festa de Natal. Era um momento muito aguardado: havia um amigo secreto entre todos e a revelação dos amigos era uma diversão. Em alguns anos, houve um Papai Noel que, após as entregas dos presentes para os fregueses, fazia a alegria da criança da. A festa durava até de madrugada, com música e danças, voltando todos cansados e felizes para casa.
Muitas ternas lembranças, de uma turma animada e feliz, após um período cansativo de vendas de Natal. Inclusive, alguns filhos dos sócios costumavam trabalhar durante o mês de dezembro nas lojas, aprendendo o ofício de atender aos clientes e auxiliando as vendedoras – além de arrumar uma atividade para o longo período de férias da época.
Outros momentos marcantes para a jovem equipe de funcionários e os filhos dos sócios eram as comemorações, por exemplo, dos jogos de Copas do Mundo. Havia uma caminhonete amarela – depois a vermelha – da Galeria que, naquela época, quando tudo era mais permitido, saía com a turma na traseira para celebrar as vitórias do Brasil. Boas lembranças, de uma equipe e época felizes!
Até antes da pandemia as festas continuavam, não mais no dia de Natal, mas no início do mês de janeiro, após o balanço anual da loja. Momento de encontro e amizade da Família Galeria!
Expansão dos negócios
Segundo os sócios, nos anos 60, tanto o mercado local quanto o da região contribuíram para o crescimento do negócio. Enquanto só havia Banco do Brasil na cidade de Guaxupé, a Galeria atendeu clientes de diversas cidades da Região, que vinham resolver suas questões bancárias e aproveitavam para fazer compras.
Tendo passado por diversos planos econômicos nesses sessenta anos, Toninho e Evaristo recordam que, na época de alta inflação, anos 80, os produtos eram remarcados quase que diariamente.
Com tantas crises vividas nesses sessenta anos, eles concluem que “o sucesso está em fazer, das crises, oportunidades de negócios”. E assim têm feito.
Para oferecerem um diferencial competitivo no setor de relógios e joias, eles investiram em uma oficina própria. Hoje, possuem três lojas – Galeria dos Presentes, Galeria dos Brinquedos e Galeria Móveis – localizadas na Avenida Conde Ribeiro do Vale, além do depósito de móveis na Rua Antonio dos Santos Coragem.
Muitos clientes de municípios próximos continuam comprando na Galeria, mesmo em tempos de comércio eletrônico. Durante a pandemia, a Galeria passou a se inserir nas redes sociais.
Os prêmios recebidos pela Galeria ao longo dos sessenta anos enaltecem todos os seus préstimos à cidade e Região. Como exemplos mais recentes destacam-se o Prêmio Olavo Barbosa e o Prêmio Mérito Empresarial da Federaminas – Federação das Associações Comerciais, Industriais, Agropecuárias e de Serviços do Estado de Minas Gerais – ambos em 2017.
Essa é uma história que vai muito além de uma Galeria dos Presentes, de um negócio: uma história de três vidas que se entrelaçaram e, baseados na amizade, confiança e respeito, realizaram muito em prol das pessoas e da cidade.
Elvira Cruvinel Ferreira
Guaxupé, setembro de 2023