Publicado sexta, 13 de fevereiro de 2026

O pedido do filho para ir pular Carnaval sozinho com os amigos costuma vir acompanhado de um turbilhão de sentimentos nos pais, como medo e insegurança, além de muitas dúvidas. Quando um adolescente diz que quer sair sem os pais, o que está em jogo vai muito além da festa. Trata-se de um marco importante no processo de construção da autonomia.
“A confiança não começa na adolescência. Ela é construída desde a infância, com diálogos abertos, sem julgamento, e com a concessão gradual de liberdade”, afirma a psiquiatra Danielle Admoni, psiquiatra da infância e adolescência, supervisora na residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM) e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).
“Quando os pais conseguem ouvir sem reagir de forma punitiva ou alarmista, o adolescente aprende que pode conversar e pedir ajuda”, afirma a médica.
A adolescência é, por definição, um período de transição. O jovem começa a se afastar gradualmente da proteção constante dos pais para experimentar o mundo por conta própria. Esse movimento é saudável e necessário para o desenvolvimento emocional — ainda que, para os adultos, ele desperte apreensão.
Dizer “sim” ou “não” de forma automática tende a empobrecer a conversa. Um “não” sem escuta pode fechar canais de diálogo e incentivar atitudes escondidas. Um “sim” sem combinados, por outro lado, pode passar a mensagem de desamparo. O desafio está justamente em encontrar o caminho do meio: aquele que respeita o desejo de autonomia do adolescente sem abrir mão do cuidado.
Mais do que autorizar ou proibir, esse é um convite para conversar. Perguntar como ele imagina o evento, o que espera da experiência, quais são seus receios e como pretende lidar com situações difíceis ajuda o jovem a refletir sobre responsabilidade e consequências. Ao mesmo tempo, os pais têm a oportunidade de expressar seus próprios medos, sem dramatizar ou controlar excessivamente.
A confiança, tão falada nessa fase, não surge pronta. Ela é construída aos poucos, em pequenas experiências, acordos respeitados e diálogos sinceros. Quando os pais demonstram que confiam e permanecem disponíveis, o adolescente aprende algo fundamental: liberdade vem acompanhada de responsabilidade, e pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
O Carnaval, nesse sentido, pode se tornar uma experiência educativa. Não apenas sobre festa, mas sobre autocuidado, limites, escolhas e pertencimento. Preparar o adolescente para o mundo é justamente permitir que ele viva experiências reais, sabendo que existe uma base segura para acolhê-lo, se algo sair do planejado.
Dicas práticas para combinar antes de sair de casa:
-Não existe uma idade mínima fixa para o adolescente ir ao Carnaval sem os pais. Avaliem juntos a maturidade do jovem e comecem por blocos menores ou eventos mais organizados, em clubes, por exemplo, sem grandes multidões.
-Saiba com quem ele vai e oriente a importância de permanecer sempre junto ao grupo de amigos. Um cuida do outro.
-Combine cuidados com o celular: guardar o aparelho em doleira por dentro da roupa e evitar deixá-lo à mostra. Se precisar usar o celular, é rapidamente e, de preferência, em um lugar fechado. Um cordão ajuda a aumentar a segurança.
-Oriente a não aceitar bebidas abertas, em copos: consumir apenas bebidas em lata ou garrafa fechada e lembrar de beber água.
-Estabeleça um combinado simples de comunicação, como enviar uma mensagem a cada duas horas para avisar que está tudo bem.